117 - DUALIDADE - 2 (S.S.)


 

DOMINGO, 05 DE MAIO DE 2019 – 6h.

Filetes de raios solares invadiam a alcova, trazidos pela brisa matutina, a qual esvoaçava a linda cortina branca de cetim com detalhes rendados e me despertava, após mais uma orgia memorável, aliás, orgias memoráveis, e me admirei em ainda estar viva...

Sim... pela primeira vez, em mais de uma década de casamento, dormi fora de casa. Talvez esse fosse um dos últimos tabus que foram quebrados nessa trajetória sexual cada vez mais surreal e inacreditável em minha vida. Me virei e não vi Rodrigo, tampouco Ayla na cama; onde estariam? Será que... estavam dando uma na sala? Não... nós ficamos acabados após a trepada, especialmente Rodrigo, que adormeceu em segundos, então mal tínhamos força para mais nada, foi um exagero considerável de nossos corpos, e não seria em poucas horas de sono que nossas energias seriam restabelecidas...

Me empertiguei e passei a mão no rosto, ainda aturdida de tudo que aconteceu, foi quando lembrei que Rodrigo tinha avisado que levantaríamos cedo, pois ele precisava abrir a igreja para celebrar o culto de mocidade, o qual começava às 8h30, e não podíamos nos atrasar.

—Ah, você já acordou! Bom dia! Disse Ayla, que provavelmente ia me acordar, mas ao me ver já empertigada na cama e bocejando, me cumprimentou. Sorri para ela e acenei.

—Bom dia Ayla, já estou indo! Respondi, e em seguida me levantei.

—O Rodrigo foi orar na praia, e... você pode por favor me ajudar a preparar nosso café da manhã? Avisou e pediu Ayla, meio acanhada. A fitei e assenti sorrindo. —Obrigada, estou te esperando na cozinha! Completou a negona poderosa, que trajava o mesmo robe rendado de quando nos surpreendeu no dia anterior, sorrindo radiante, depois saiu.

No banheiro, após escovar meus dentes e ajeitar os cabelos, é que senti os efeitos dessa doideira sexual começarem a surgir. Passei logo pomada anestésica no cu e um pouco na xoxota, mas o resto de meu corpo estava moído. Foi realmente uma estripulia daquelas, eu estava cada vez mais imersa nessa vida sexual, alcançando novos níveis de devassidão e rompendo os limites de meu corpo, e isso era cada vez mais excitante, mesmo sendo bem exaustivo.

Optei por não tomar banho, até porque já tinha tomado na noite anterior, após a transa. Só passei um perfume e me arrumei, depois saí do quarto e fui à cozinha, onde vi Ayla pegando um bolo, pães de forma e frios, além de algumas frutas. Ela me viu e abriu um sorriso amável.

—Pense numa cama deliciosa a sua, aliviou bastante o cansaço! Comentei.

—Obrigada, mas... você gostou de passar a noite aqui? Indagou Ayla, simpática.

—Adorei, foi uma loucura sexual deliciosa! Respondi, e demos risada.

—Daqui a pouco o Rodrigo chega, e... vai estar apressadinho! Comentou a negona, pegando três mangas vermelhas grandes e vendo se estavam boas, então fui ajuda-la.

—Faz tempo que ele saiu? Indaguei, analisando as mangas. Estavam perfeitas.

—Não tem nem 10 minutos; ele saiu resmungando porque acordou atrasado para ver o nascer do sol! Respondeu Ayla, e dei risada. Ela também riu, sacudindo a cabeça lentamente.

—Quer que eu faça suco de manga para tomarmos? Propus, já pegando uma faca.

—Se puder fazer, ficarei grata, porque o meu fica tão aguadinho! Disse a mulher, e sorri.

—Você devia fazer um curso de culinária, aí poderia cozinhar para o Rodrigo! Sugeri.

—Já pensei nisso, mas cadê o tempo mulher? Eu vivo numa correria sem fim, mal tenho tempo de curtir meu branquelinho direito, mas queria fazer! Replicou a negra, desolada.

—Ok, então vem, vamos preparar um lanche reforçado para nós, e principalmente para o Rodrigo! Convoquei, afagando os cabelos de Ayla. Ela assentiu sorrindo e me abraçou.

—Me ensina a fazer o suco de manga? Pediu Ayla, e assenti. Ela me agradeceu.

Após fazer o suco com a ajuda de Ayla, fomos para os fundos do condomínio, e vimos Rodrigo, meio longe, ainda na praia, ajoelhado e orando, apenas com sua calça social preta. Como a paisagem estava linda, a maré baixa e as ondas quebrando suavemente. Quanta paz.

—Ele sempre teve esse costume? Indaguei, observando nosso macho orar.

—Toda vez que vem para cá, sim! Ele diz que... orar na praia tem o poder de abrir nossos corações pecadores para Deus, e com isso... receber sua misericórdia; o suave vento matutino significa o abraço de Cristo acolhendo sua súplica por perdão! Respondeu Ayla, que marejou os olhos.

—Você... conheceu o Rodrigo no grupo né? Por isso não me contou naquele dia! Comentei. Ayla me fitou e deu um sorriso meio embotado, fitou o pastor e a mim de novo.

—Sim! Sabe, falar sobre o grupo a quem não conhecemos é complicado, mesmo pessoas com uma sexualidade resolvida como você, poderiam se assustar ou... interpretar de forma equivocada, além, é claro, de sair espalhando por aí! Respondeu a negona.

—Eu... jamais faria isso, sempre odiei fuxico! Repliquei. Ayla se justificou:

—Ok, mas eu não a conhecia o suficiente e nem tinha confiança para revelar esse tipo de coisa, tampouco o Rodrigo revelaria, e no caso dele não é por falta de confiança em você... é porque... ele quer seguir em frente sendo o Rodrigo, e não mais o personagem... “Abençoado”!

—Será que ele vai conseguir? Sinceramente, acho que não... porque ele é sedutor demais, além de ter o pau que tem, e só pelo que vimos de Leila e Stefhany, fora outras... acho que ele não vai conseguir se livrar desse... “personagem”! Comentei, e Ayla riu concordando.

—Vamos pegar uma praia? Olha como esse céu está lindo e convidativo! Sugeriu Ayla, e notei claramente que ela não queria mais continuar no assunto “recomeço” de Rodrigo.

—Ah, bem que eu queria, mas não trouxe biquíni! Repliquei, desolada.

—Eu tenho uns aqui, e... seu corpo é parecido com o meu, então tenho certeza que algum vai servir; anda, vamos curtir, aí voltamos nós três para o café da manhã! Retrucou Ayla, e assenti, empolgada, então fomos para o quarto onde tivemos nossa noite memorável.

Haviam quatro modelos de biquíni, lindos e de um tecido muito gostoso, mas um só se ajustou bem as minhas curvas. Preto, com estampas de flores, alças de miçangas douradas na parte de cima e nas laterais de baixo. Ayla escolheu um branco com detalhes amarelos e argolas nas alças superiores e laterais. Eu e a negona nos cobrimos da cintura para baixo com toalhas e partimos, saindo pelos fundos do condomínio, mas ficaríamos afastadas de Rodrigo, pois este parecia imerso em sua oração.

Faltava pouco para as 7h. A sensação térmica era agradável, a brisa estava deliciosa, como uma carícia dos anjos nos saudando por mais um dia. Vi um casal de meia idade fazendo caminhada, quase correndo, depois uma jovem, bonita, passeando com um lindíssimo Husky Siberiano. Em alto mar, vi um pescador em seu barco, buscando o sustento. Foram as únicas pessoas que reparei ali.

De onde estávamos, podíamos ver Rodrigo, ainda orando, concentrado. Eu e Ayla nos sentamos próximas à beira do mar, contemplando a linda paisagem e o céu sem nuvens. Aquele trecho era muito distante das barracas e a vila dos pescadores, então quase não vinha ninguém.

Espontaneamente, a negona me contou como foi seu primeiro encontro com o pastor, e claro que mal pisquei, atentíssima a cada palavra dita pelo ébano feminino, que relatou detalhadamente tudo que pôde se lembrar, conforme pedi... porque eu iria escrever aquela transa. Ela foi paciente, e vendo que eu estava muito interessada, falou e falou à vontade.

—Meu Deus, você chegou causando hein? Comentei, e demos mais risadas.

—Causei mesmo, porque fiquei doida quando vi o Rodrigo, e eu sei que ele também balançou quando me viu, aí a química foi instantânea, aahh! Retrucou, suspirando no final.

—O que acha de darmos esse mesmo presente a ele esse ano? Sugeri, e Ayla deu risada.

—Sem chance, após... ficar viúvo, o Rodrigo passou a comemorar seus aniversários de forma mais social; os fiéis de sua igreja organizam tipo um evento para homenageá-lo, os amigos vêm, além do mais, um dia antes... a... a... ah, a vagabunda, a puta escrota, a rameira que cuida do filho dele traz o menino para passar o dia e o resto da semana com o pai! Disse Ayla, bufando de ódio.

—Meu Deus... por que tanto ódio dessa moça? O Rodrigo já não disse que por enquanto precisa dela? E outra... ele não vai se casar com ela! Retruquei, e Ayla deu um sorriso irônico.

—Essa cadela quer tirar o Rodrigo de nós! É uma aproveitadora, uma vadia safada, que desde bem novinha dava em cima dele, não respeitava a própria irmã, então preciso dizer mais o que? Acha que uma pessoa que vivia cobiçando o marido da irmã tem caráter? Acha que ela cuida do neném dele... de graça? Olha Luciana, no grupo eu tinha uma regra: JAMAIS me envolver com homem casado, o Rodrigo foi a ÚNICA exceção, e por mais que eu estivesse envolvida por ele, nunca pedi a ele que largasse a esposa por mim, já essa vagabunda...! Rebateu a negra, que bufou com um semblante raivoso.

—Acha mesmo que ele vai ceder? Não conte com isso, porque o Rodrigo... viveu 20 anos sendo um comedor, e claro, houve uma mudança contundente, porém... o próprio Rodrigo me disse, e eu não tenho razão para mentir: “se eu me casar com a Juliette... estarei repetindo os erros do meu casamento, e eu não quero isso”, então Ayla... eu preciso dizer mais o que? Retruquei, e a negona me fitou com um semblante bem admirado... e provavelmente aliviado.

—E-Ele... te falou isso? Indagou Ayla, que já sorria confiante, então arrematei:

—Falou... e eu acreditei; acreditei porque o que aconteceu nas últimas 24 horas comprova isso; o Rodrigo jamais vai trocar a vida sexual que tem... por uma aliança frouxa em seu dedo. Seria uma contradição muito cretina, então ele não vai se amarrar de novo!

—É... faz todo o sentido mesmo, ai Lulu... eu vi tanta sinceri... olha lá, o Rodrigo levantou, terminou a oração! Disse Ayla, que se interrompeu para me avisar.

EEEIIII, ESTAMOS AQUI! Gritei, e Rodrigo nos avistou, sorriu, tirou o resto de areia que havia em sua calça e veio até nós, e nos levantamos. Era hora de partir... que pena...

—Ainda bem que não me esqueci de agradecer a Deus por ter duas mulheres tão lindas e gostosas como vocês! Nossa, deixe eu tirar uma foto porque vocês estão deslumbrantes nesses biquínis! Disse nosso macho, galanteando ao chegar, e sorrimos eriçadas.

A troca de olhares entre eu e Ayla, foi tipo: “tá vendo? Bem que eu disse”. Ela assentiu.

Rodrigo tirou várias fotos, fizemos poses sensuais, e as capturas ficaram lindas. Ayla era muito fotogênica, em seguida voltamos para o apartamento, de mãos dadas com nosso macho.

—Vamos comer, gente! Disse Rodrigo, brincando ao entrarmos no apartamento.

—Opa, só se for agora, estou prontinha! Atiçou Ayla, mostrando os seios. Rimos.

—Vamos comer, gente! Você ouviu sem a vírgula depois do comer e pensou sacanagem. Eu estava chamando vocês para tomarmos o nosso café da manhã! Retrucou o pastor.

—Ah... que pena, seu malvado! Disse a negra, fazendo biquinho. Que mulher linda...

—Vamos que eu não posso me atrasar! Chamou o macho, indo para a cozinha. Assentimos e o seguimos, pedi licença, abri a geladeira e tirei o suco que fiz, pondo sobre a mesa. Nos sentamos e começamos nosso desjejum. O bolo estava delicioso.

—Ai Luciana, que suco divino! Comentou Ayla, quase gozando ao bebericar um gole.

—Realmente, está uma delícia! Endossou Rodrigo.

—Obrigada... ensinei Ayla a fazer, então da próxima...! Respondi, brincando e rimos.

—Depois vou pedir a você que faça uma garrafa de dois litros desse suco para eu tomar durante o dia! Comentou Rodrigo, pondo mais em seu copo já vazio.

—Dois litros? Nossa... que exagerado! Comentou Ayla, rindo e rimos.

—Bom... me deem licença que eu vou passar minha camisa, precisamos ir! Anunciou nosso comedor, limpando a boca, se levantando e indo para o quarto. Assentimos.

—Ainda bem que sobrou um pouco! Você quer? Comentou e ofereceu Ayla.

—Obrigada, pode tomar, eu sei que você quer o restinho! Ela assentiu com um sorriso bem sapequinha e despejou o resto em seu copo. Preencheu pouco mais que a metade.

AH NÃO! NÃO ACREDITO, MERDA! Berrou Rodrigo, lá do quarto, furioso. Nos levantamos rapidamente da mesa e fomos até o aposento, aflitas e apreensivas.

—O que houve meu amor? Indagou Ayla, assustada ao ver nosso macho com sua camisa na mão, queimada e rasgada, e segurando o ferro de engomar com fúria.

—Fui passar minha camisa, o ferro grudou no tecido e queimou, aí abriu esse buraco! Tecido vagabundo! Respondeu o homem, indignado, jogando a roupa no chão e passando a mão no rosto. —E agora? Eu vim só com essa camisa, e não vai dar tempo passar em casa e vestir outra, olha só para isso! Completou, bufando depois, sacudindo a cabeça e quase chorando.

—Não é o tecido que é vagabundo... você que não prestou atenção na temperatura do ferro; nem todo tecido se engoma na temperatura mais quente, e só de sentir a textura desse aqui... já sei que ele tinha de ser engomado com o ferro morno! Retruquei, enfática.

—Nossa, pior que não tem mais jeito! Comentou, Ayla, observando a camisa destruída. 

—Ayla... não tem nenhuma camisa minha de botão ou gola polo aqui? Indagou Rodrigo.

—Não amor... você só deixou três calças sociais pretas aqui e algumas cuecas, até porque a gente mal fica aqui, vou mais para sua casa! Respondeu e explicou a negra, penalizada.

—Tudo bem então, vamos, eu vou assim mesmo, lá eu dou um jeito!

—Vai abrir a igreja e fazer a oração assim? Sem camisa? Indagou Ayla.

—Não se preocupe, eu sei o que fazer! Vamos Luciana, senão vamos nos atrasar! Respondeu o pastor. Assenti e Ayla pediu a camisa a mim, a entreguei e depois ela indagou:

—Quem passou essa camisa antes de você vir para cá? Rodrigo respondeu:

—Foi a Sandra, na maioria das vezes é ela quem cuida das minhas roupas!

—Ah sim! Puxa que pena, era uma camisa tão linda! Comentou Ayla, desolada.

—Só de pensar no quanto paguei por ela, dá vontade de chorar! Respondeu Rodrigo, sereno, em seguida bufou. Realmente, era uma linda camisa. A cara dele deu dó...

Nos despedimos de Ayla, e ela avisou que iria dormir mais um pouco e partir depois. Saímos meio apressados, Rodrigo, sem camisa, e eu no banco de trás, MUITO sonolenta, bocejando direto.

—Mas você hein pastor? Por que não me pediu para engomar sua camisa? Agora está aí, no maior prejuízo! Indaguei e comentei. Ele me fitou pelo retrovisor e abaixou a cabeça.

—Preciso aprender a me virar, não a terei sempre por perto para engomar minhas roupas! Respondeu Rodrigo, com tom de voz penoso, mas retruquei com uma bronca:

—Mas eu estava por perto naquela hora, e não seria problema algum para mim passar sua roupa, você não iria se atrasar e não estaria nesse transtorno seu teimoso!

—Ok, me desculpe, mas... senti vergonha de te pedir isso, na verdade estou envergonhado em não saber passar uma roupa, claro, tive quem fizesse isso a vida toda! Disse o macho, acanhado.

—Puxa... isso me deixa tão triste, eu só quero ajudar, não me exclua assim, eu disse que ia lhe dar suporte no que fosse preciso, e quando você se fecha dessa forma... dá a impressão de que não passo confiança! Desabafei, desolada e meio tristonha. Rodrigo rebateu:

—Que absurdo... eu não lhe pedi que engomasse minha camisa, não foi para exclui-la de nada, apenas... porque julguei... que não haveria problema em fazê-lo sozinho; passar uma roupa é coisa rápida, e também... achei que era algo simples, eu sinto até vergonha de não saber algo tão básico!

—Calma, não tem problema, mas... quando eu estiver por perto... e você se sentir inseguro sobre alguma atividade assim, por favor... não sinta vergonha de pedir ajuda! Se precisar, pode me chamar que eu faço sua comida, lavo e engomo suas roupas, eu quero ajudar! Repliquei e me prontifiquei, sincera.

—Tudo bem... eu peço, prometo! Disse o macho, me fitando pelo retrovisor e sorri.

—Sugiro que você passe em sua casa e vista uma camiseta qualquer, não acho adequado um líder religioso se apresentar aos seus fiéis assim! Comentei, preocupada.

—É... vou chegar atrasado mesmo, já estava pensando nisso! Respondeu Rodrigo, que sorriu.

Conversamos mais um pouco sobre várias coisas, na verdade eu que fiquei falando o tempo todo, como uma maneira de não dormir e com medo de Rodrigo dormir ao volante, pois ele bocejava demais, e chegamos ao bairro onde moramos em 20 minutos. O pastor veio rápido mesmo, mas a falta de trânsito no horário cedo em que saímos contribuiu para a celeridade no percurso. 

Rodrigo foi em casa e fiquei aguardando no carro. Foi rápido, ele saiu com uma camiseta meio velha, mas bem cuidada, entrou no veículo e partimos, eu queria conhecer sua igreja, por isso pedi para ir junto. Chegamos na rua de sua igreja, ele olhou no relógio e fez uma careta rápida. É... eram 8h27...

Na calçada de seu pequeno templo religioso, o qual não tinha reboco e sequer placa, uns 15 jovens encostados ao muro, e Juliette, apoiada no portão, conversando com um rapaz bonito até, bem vestido e com postura altiva, mas pela cara dela, devia estar bem entediada com o papo.

Ela trajava uma linda blusa com estampas de flores, mangas médias e frouxas, bem comprida e uma calça jeans azul, com duas manchas brancas nas coxas. Mesmo com o quadril largo, mas sem muita bunda, Juliette tinha sim um corpo bonito e atraente, e era linda. Rodrigo parou o carro no meio fio e fitou a ex cunhada com um semblante penoso, deu um longo suspiro e depois buzinou. Ela olhou surpresa e meio areada. Mesmo no banco traseiro, eu podia ver o gestual de Rodrigo. 

—Ela é muito bonita viu? Comentei, vendo-o abrir a porta do carro. O macho sorriu meio angustiado para mim, tirou a chave da igreja do bolso e saiu com ela nas mãos, após um longo suspiro.

—Pega Juliette, abra a igreja e faça a oração inicial! A reunião é sua! Disse Rodrigo, jogando a chave para a mulher, que não conseguiu aparar, se abaixando para pegá-la do chão.

—A graça e a paz, Pastor! O que aconteceu Pastor? Pensamos que não ia ter culto hoje! Cumprimentou e indagou uma menina, com um olhar bem taradinho para ele, fora outras... 

—A graça e a paz, Deus os abençoe meus consagrados! Me perdoem, tive um pequeno imprevisto, mas a Juliette vai conduzir muito bem a reunião de vocês! Respondeu o macho, simpático com seus fiéis. Eles assentiram sorrindo. Rodrigo acenou para todos, e quando estava prestes a entrar de volta no carro, Juliette correu até ele e indagou, aflita:

—O-Onde você esteve? Te liguei tanto! Por que você chegou atrasado assim?

—Eu acabei de explicar! Olha Juliette, depois a gente conversa! Abra a igreja e ministre o culto, os meninos estão esperando e o sol está ficando forte! Respondeu Rodrigo, seco.

—E-Espera... mas...! Tentou dizer a jovem, mas ao me perceber dentro do carro, no banco traseiro, abaixou o olhar, desolada, e se calou resignada, mas depois me fitou. Rodrigo explicou:

—Juliette, eu estou cansado, vou dormir! Eu lhe deleguei a liderança do grupo de jovens para que você me ajudasse, essa é a sua responsabilidade, não é necessário que dependa de mim para fazer isso, você é muito competente e aprendeu a ministrar comigo! Confio em você!

—Você... está se esquecendo... de seu compromisso com o Senhor... pra viver nessa vida promíscua... liberte-se... pare de viver nessa vida vazia de prazer falso... por favor... pare, já chega disso! Comentou e suplicou Juliette, em voz razoavelmente baixa e ME ENCARANDO, e fiquei estarrecida. 

—Eu nunca deixei meu compromisso com Deus por nenhuma promiscuidade, só tive um contratempo, tanto que estou aqui dando uma satisfação a vocês; agora, abra a igreja e ministre o culto, pois da minha vida pessoal cuido eu! Retrucou o macho, ríspido, mas sem elevar o tom de voz.

—E-Eu... também sou parte de sua vida pessoal... e você sabe disso! Por favor... eu... só quero o seu bem... fiquei preocupada... você nunca se atrasou... é só isso... eu... vou abrir a igreja! Desabafou a jovem, e apesar de ter achado sua fala anterior afrontosa, fiquei com pena da pobre, que ia saindo, mas Rodrigo segurou seu braço, e o casal trocou um olhar terno. Ela estava sentida, isso era nítido.

—Me... perdoe Juliette! Me perdoe! Disse Rodrigo, com um semblante contrito, em seguida ele a soltou, entrou no carro e bateu a porta, então ela veio sorrindo e indagou:

—Posso ir pra sua casa depois do culto? Ele respondeu amável, mas com pesar no olhar:

—Pode... eu... vou deixar o portão aberto! Ela sorriu e tocou a mão de seu amado. Era fácil entender porque ele ficava tão desajustado com Juliette. A semelhança com a falecida esposa, o olhar...

—O que você quer almoçar? Indagou Juliette, o fitando brutalmente apaixonada. Ou não?

—Não sei Juliette, só estou pensando em dormir quando chegar! O que você fizer... eu como com alegria e gratidão, tudo bem? Replicou o pastor, sincero e ela sorriu entusiasmada.

—Tá bom! Sussurrou a jovem. Eles trocaram olhares, depois ela foi e abriu a igreja e chamou os jovens. Rodrigo deu uma última fitada nela, deu um longo suspiro e então partimos.

—Você... foi um pouco rude com ela! Tadinha! Comentei, enquanto íamos, bem rápido.

—Não posso deixar que façam qualquer ofensa ou julgamento sobre vocês, tampouco palpitem sobre como levo minha vida! Eu não dou esse direito a ninguém! Respondeu Rodrigo.

—Ela... está alimentando falsas esperanças com você? Está se iludindo? Indaguei, e Rodrigo freou a poucos centímetros de dobrar a esquina e entrar na rua onde moro.

—Pergunta fora de contexto a sua! Respondeu o pastor, me deixando surpresa.

—Fora de contexto? Como assim? Indaguei, confusa.

—Juliette expôs seus sentimentos a mim quando sua irmã ainda era viva, como relatei naquele dia! Eu era infiel sim, mas nunca sequer tive um olhar malicioso para minha cunhada; mesmo sendo assediado, sempre a respeitei, e quando Ayla a acusa de se aproveitar do meu momento de luto e cuidar do meu filho com a intenção me isolar de vocês, não está fazendo cena de ciúmes, é assim mesmo! Respondeu meu amante, me fitando pelo retrovisor e me deixando estarrecida.

—Meu Deus... e nesse processo...! Comentei, mas me detive, abobada.

—Sim... eu... também cultivei sentimentos por ela, mas... não a ponto de serem uma paixão, é apenas gratidão... eu nunca prometi e nem dei garantias de nada... mas a Juliette, é a única pessoa junto aos meus sogros a quem posso confiar os cuidados do meu filho até ele terminar o pré-escolar! Eu juro que nunca tentei transar com ela, juro, mesmo após a morte de minha esposa, eu sempre tentei manter as coisas em seus lugares, mas...! Justificou-se Rodrigo, abaixando a cabeça e alisando a testa.

—Se entregou por carência... ou... por... saudade não foi? Concluí, indagando.

—Talvez, mas acho que não há desculpas, no final das contas, não tem vítima nessa história. Deus pôs a Juliette em minha vida há muitos anos... para que eu nunca me esqueça de que tenho contas a acertar com minha consciência até o fim de meus dias, mas... só agora eu me dei conta disso! Confessou o comedor, profundamente angustiado. O abracei por trás do banco e repliquei:

—Não se puna assim, você foi perdoado... sua esposa o perdoou! Ele me fitou e sorriu.

—Se você não fosse casada... eu até iria para a sua casa, porque com você... meus sentimentos não são falsos, e não precisamos nos enganar! Essa noite em que dormimos juntos, foi muito bom! Desabafou Rodrigo, alisando minha mão. Me arrepiei toda. Por uns instantes entendi aquele desabafo como um momento de fragilidade dele, mas depois, rapidamente atestei: era uma amostra de força...

—A que horas termina o culto dos jovens? Perguntei, afagando seus cabelos.

—9h30, às vezes 10h! O culto da noite é mais longo! Respondeu Rodrigo. Nossa, eu vi a cara dele pelo retrovisor, e o homem estava acabado, com os olhos fundos; notei a mão dele meio trêmula...

—Ah... é pouco tempo... que pena! Respondi, fazendo uma leve massagem em seus ombros.

—Não sei se você reparou, mas havia um rapaz conversando com Juliette quando chegamos! Disse Rodrigo, me fitando pelo retrovisor e assenti. —Pois bem, ele gosta muito dela, eu diria que está apaixonado mesmo, e é um jovem inteligente, bonito, honesto, educado, trabalhador e com objetivos sólidos de crescimento; toda vez que ele a vê, dá um presente para agradá-la; mas Juliette o trata com indiferença e o rejeita, diz  que não quer nada com ele, e sim comigo! Continuou Rodrigo, desolado.

—Você... acha que... a Juliette te ama? Perguntei. Ele me deixou arrepiada ao responder:

—Disso não tenho certeza.. mas de qualquer forma... nunca vou pertencer a ela! Enquanto existir uma mulher que me procure querendo dar e receber prazer... eu também vou me entregar, porque no fim das contas... só valeu a pena renunciar a isso... quando restabeleci meu casamento e parei de trair minha esposa... quando nos alinhamos verdadeiramente como casal, mas agora... não há mais a quem enganar! 

—Pretende... parar com essa vida sexual de novo um dia? Perguntei, curiosa e meio cabreira.

—Vivo um dia de cada vez sem me preocupar com isso. Não fico pensando com quantas ainda vou transar ou quando vou parar. Sabe, nesses anos de grupo, não transei com todas as mulheres e fora dele menos ainda, então... quase nada mudou nesse aspecto; não crio expectativas com Leila, tampouco Stefhany, a única coisa certa em minha mente, é fazer do meu filho um homem melhor que eu, e com empenho e a ajuda de Deus, vou conseguir, mesmo sozinho! Respondeu Rodrigo, categórico.

Como eu gostaria que Ayla estivesse presente naquele momento, para ouvir da boca de Rodrigo o que eu ouvi pela segunda vez, e pela segunda vez... acreditei piamente naquelas palavras, porque aquele homem foi moldado para ser um comedor, um provedor de prazer, embora tenha renunciado a isso ao se entender com a esposa, e ironicamente voltando para essa espiral de luxúria após a tragédia, e a ratificação vinda dele só comprovava em minha mente... que Juliette estava recebendo o castigo por ter cobiçado o marido da irmã, o que a meu ver é algo totalmente amoral, imoral e desrespeitoso...

—Então... minha pergunta não foi fora de contexto! Retruquei. Ele riu, engatou a primeira marcha, dobrou a esquina e me deixou em casa, nos despedimos, e saí, feliz. Em meu lar, tomei um banho e nem quis saber de almoço, só capotei na cama, e dormi em poucos minutos, extasiada...             

FIM

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Olá queridos alunos, espero que esteja tudo bem com vocês. 

Essa é a segunda parte da série "Dualidade", e quem não leu a primeira, sugiro que o faça, ou, até mesmo releia, afim de se situar na narrativa. Ok, eu poderia suprimir esse texto sem prejuízo a vocês, mas como alguns leitores amam as histórias S.S. na mesma proporção das com sexo, postei, e corrigindo um erro lá da parte um, Dualidade é uma minissérie em QUATRO partes, todas S.S., contudo, esta é a última envolvendo Rodrigo, embora as outras tenham participação indireta dele.

Gostaria de agradecer aos leitores que comentaram, novembro e parte de dezembro foram bem atribulados e angustiantes. Peço desculpas por não ter respondido alguns e-mails que recebi, preocupados com minha ausência, mas os detalhes sobre isso serão dados na postagem de Natal.

Bem, por conta de tudo isso que aconteceu, esta é a penúltima postagem de 2024, a última será a tradicional mensagem de Boas Festas, com o motivo de eu ter entrado em mais um longo hiato.

É isso, beijos, tenham um domingo maravilhoso, com muita paz e vida.



Comentários

  1. Conto bancana. Particulamente os contos onde tem a participação do Rodrigo não me chamam atenção pois é um personagem muito controverso e cheio de hipocrisia na maioria das vezes(comer mulher casada e depois ir pra igreja pregar.... retrato da podridão humana). Mas a escrita e o conto é bom.

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  2. Ufa!! Cheguei no último conto. Agora estou em dia com as "matérias" dessa professora gostosa kkkkk. Quando vc vai retornar com os contos?? Alguma previsão?

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  3. Professora mais que linda.

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