SER PROFESSOR


 Queridos leitores, como todos vocês sabem, hoje é Dia do Professor, e nessa postagem, vou falar um pouco sobre ser professora, e expor de forma sucinta, meus motivos de ter escolhido essa profissão tão maravilhosa, mas ao mesmo tempo tão difícil e cada vez mais desafiadora. Ser professor no Brasil é uma tarefa árdua, na maioria das vezes ingrata, mas que quando resolve mostrar seu lado bom... nos dá a certeza de que fizemos a escolha certa.

Vim de uma família pobre, mas não miserável. Nasci no sertão nordestino, castigado pela estiagem, pelo quase isolamento da capital e sua constante evolução. Meus pais tiveram oito filhos, cinco mulheres e três homens, sendo eu a segunda do meio. Todos nós crescemos no semiárido e aprendemos desde cedo o valor do trabalho, do esforço, aprendemos de nossos pais, que nem sempre ganharíamos as coisas de suas mãos, e que se quiséssemos ter o que desejávamos, a saída era uma só: ESTUDAR E SE FORMAR, ou “virar Doutor”.

Crescemos com esse ensinamento, e nem todos os meus irmãos são formados, mas os que não se formaram, venceram sim, um deles é médio empresário e ganha BEM mais que eu...

Quem leu o relato “O IMPACTO SENTIMENTAL DE UM REENCONTRO”, postado essa semana, mais precisamente a parte final, sabe que tenho mais dois irmãos que são professores; o mais velho dos homens e uma mais velha que eu, e na época em que decidi também ser uma docente, fui alertada por ambos de que estava cometendo um erro...

O problema é que eu era e ainda sou apaixonada pelo Magistério. O poder de ensinar, tirar uma pessoa da ignorância e abrir sua mente ao mundo, mostrar e provar que ela é capaz de mudar sua realidade e melhorar sua vida através do conhecimento, são características que vemos somente em nossos pais... e nos professores. Os pais nos ensinam a enfrentar a vida, e os professores nos preparam para enfrentar a vida.

Quando eu ainda cursava o Fundamental, tive a oportunidade de ver meu irmão mais velho lecionando como professor substituto de outra turma... e aquilo me encantou, encheu meus olhos, eu queria ser como ele, queria transmitir conhecimento, queria ter a postura que ele tinha na sala de aula, queria... ser respeitada como ele era respeitado, e esse valor é único. Me espelhei nele, mas eu tinha minha própria metodologia traçada...

No início do Ensino Médio, pus uma plaquinha de reforço escolar no portão de minha casa, ainda no interior, e comecei ensinando matemática aos filhos dos vizinhos, depois aos colegas, sempre inspirada pelos meus dois irmãos professores, ansiosa para estar no mesmo lugar que eles um dia, e estudando com mais garra para isso. Era meu sonho, e eu não iria soltá-lo.

Me formei na primeira faculdade, Pedagogia, com 23 anos, pagando 50% graças a uma bolsa de estudos, e os outros 50, com muito trabalho como vendedora e a ajuda de meu marido. Sim, na época eu já estava casada, pouco tempo de matrimônio, e esse início de vida conjugal também foi difícil, mas enfim, me formei em Matemática no ano de 2007, e, prontíssima para lecionar, caí no mundo, cheia de esperança, de vontade de mudar tudo através da educação, promovendo essa mudança através dos números.

O primeiro tombo que levei... foi quando descobri que isso é uma utopia...

Dei aulas em escolas particulares, depois em públicas de Ensino Fundamental, mas sem ser concursada, apenas contratada, e explicar os pormenores de se conseguir um contrato para atuar na rede pública de ensino é algo enfadonho de se relatar e pouco interessante, só saibam que era humilhante viver em gabinetes de vereadores ou prefeitos, implorando por vagas a cada ano, sem contar as humilhações que nós (após conseguirmos o contrato) sofríamos das concursadas, as quais nos viam como inferiores, porque não tínhamos passado em um certame.

Após passar no concurso para Professor do Estado em 2009, cá estou, estabilizada, mas não estável... e isso é ser professor... porém, graças a Deus, tento não me consumir de estresse.

Ser professor é cansativo, é enfadonho, a cada chegada em casa, exausta, tonta, eu lembrava das palavras desanimadoras de meus irmãos e ouvia de meu marido que estava me desgastando à toa, que tinha condições de trabalhar em outra coisa e viver com menos aborrecimento e choro, só que... não se abandona aquilo que AMAMOS fazer.

Ao passo que eu lamentava meu dia massacrante de labuta... lembrava da pequena parcela de alunos que ajudei a superarem suas dificuldades, de seus sorrisos quando em suas provas, ao invés de uma nota vermelha, na maioria um 2 ou 3, havia um 7, um 8... e isso graças ao meu ensino, as minhas aulas, então eu seguia em frente, certa de que escolhi o ofício certo.

Finalmente compreendi, que sendo professora, jamais conseguiria mudar o mundo através da educação, mas conseguiria ALTERAR um pouco o mundo de algumas pessoas, e nesses anos que se passaram, transformei gente que queria vencer, mas não tinha um norte a seguir, em verdadeiros lutadores por seus objetivos; uns venceram e continuam vencendo.

Transmiti não só ensinamentos de matemática, mas aquilo que aprendi de meus pais, e em várias classes com 30, até 45 alunos, onde 70, 80% são vagabundos claramente desinteressados, 15% estão lá e cá e o restante quer MESMO estudar, consegui fazer essa pequena parcela APRENDER A SER GENTE... e isso... é a essência de ser professor.

Como eu queria que o professor no Brasil, tivesse o respeito que tem no Japão, onde até o imperador se curva diante de um mestre, porque sabe de sua importância na formação de um profissional, sabe de sua parcela de relevância na construção de um cidadão.

O professor tem forte influência em parte do processo que molda o caráter de uma pessoa, e sem querer entrar muito na seara política, essa influência se dá, na maior parte das vezes, de forma negativa, mas SEMPRE será inevitável não associar professor com política, porque uma das funções do professor... é ensinar parte de uma visão de mundo ao aluno.

Nesse famigerado ano político, nós, professores, sofremos assédio moral de toda a parte por conta dessa polarização, dessa briga “Flamengo X Fluminense” que virou a política brasileira. Pressão de sindicatos, secretarias, militância descarada de alguns, enfim... nós, professores, somos visados pelos dois lados dessa disputa, e isso é triste, porque nunca militei politicamente, odeio isso. Na sala de aula, dou a matéria, aplico prova e pronto, assim como Raimunda.

Em pouco mais de uma década como professora, vi muita coisa; coisa que gostei de ver, e coisa que por mim, jamais teria visto. Passei por momentos tensos, momentos de emoção profunda, ouvi elogios e xingamentos, enfim... a vida de um professor, mas professor DE VERDADE é uma montanha russa imparável, com mais baixos do que altos, porém com uma convicção: a de que vamos conseguir formar vencedores, mesmo que poucos, mas vamos.

E nada melhor que um relato, ou melhor, uma minissérie de relatos para mostrar a vocês como se forma um vencedor; e claro que me refiro a minissérie “MOTIVAÇÕES”. A comovente história de Lidiane e Ricardo, e é esse fato que me fez ter ainda mais orgulho de ser professora, e arrebatou elogios e mais seguidores quando foi publicado no contoerotico.

MOTIVAÇÕES é minha pós-graduação como profissional e ser humano. Uma história forte, um aprendizado inesquecível, a confirmação de que ser professor foi a melhor escolha que fiz na vida, porque ver o quão alto vi Lidiane voar, arrebenta minha alma de alegria.

Queridos alunos, ser professor é ensinar e aprender, é muitas vezes chorar desolada por ser desrespeitada... mas também é chorar de emoção... quando pelo menos um aluno seu chega e diz: Obrigado Professora... consegui passar na prova... porque aprendi com a senhora.

Beijos a todos. Fiquem na paz de Deus e até segunda.

Comentários

  1. Toda honra para ti, pró. Até hoje tenho contato com meus professores e tenho imenso respeito por eles. Não sei o que será desse país com essa geração Tiktok. Abraço!

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  2. Feliz dia do Professor pra vc Lu!!!
    Infelizmente, como numa cidade grande em que as pessoas enxergam apenas os prédios altos e o asfalto, nem se dando conta de que ali há um solo, a sociedade não enxerga a relevância dos professores, ignorando que sem eles não haveria sequer alfabetização, o que comprometeria o funcionamento de todas as engrenagens das relações humanas.
    Mesmo assim, parabéns a você e a todos os que abraçam o magistério como profissão.
    Beijão pra vc!

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  3. Professora mais que linda. Você não tem ideia do quanto faz a diferença na vida de muitas pessoas. Sei que a vida é difícil mas lembre-se você é especial.

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  4. Mesmo atrasado, parabéns Luciana…um professor sempre será lembrado e respeitado por todos aqueles que necessitam de conhecimento…como dizia a saudosa Cora Coralina : “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”…saudades…BOTO

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  5. Parabéns para a professora mais gostosa do Brasil!

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